Quando a Porta fica
aberta muito Vento entra ou Mãinha, Esqueci a Chave!
A porta estava aberta.
Entravam muitas pessoas, entravam cães felizes por não entrarem pelo lugar dos
cães entrarem, entravam insetos intrometidos e incertos espíritos de
inspiração.
Da mesma forma, como
entrava essa multidão, se acotovelando e empurrando; uma outra massa amontoada
de chapéu, travesseiro, sapato, pneu, cérebro e falo saía desesperada, e me
deixava, a mim, a ver esse louco trânsito, atravessar-me como em duas ser apenas
essa que voz fala, ao testemunhar a ida e vinda de tais entidades.
E eu permanecia bem
enciminha do batente.
era quase a fechadura.
Mas não me fechava, não;
maldição! Toda água que transbordava de lá me banhava de cá e ainda escorria
pelos meus pés que deveriam, de alguma forma, dividir algo entre dentro e fora.
Chegou um dia, e eu mesma
no tempo de desembarque, fui-me de mim.
já não morava mais aqui.
Quando voltei,
a porta estava tão
fechada!
tentei das chaves que
guardava no colar que carregava no pescoço como amuleto, mas compradas no
chaveiro sem fazer forma, dificilmente abririam qualquer coisa.
gritei,
"mãaaaaaaaaaaaaaaaae! joga a chave!"
e por muito tempo, não
encontrei minha mãe.
a minha mãe estava
quietinha, sentada no tapete, perto de uma caixa de madeira, lendo umas cartas
antigas.
ela via várias cartas de
amor,
de amores que outros
imaginaram nela e talvez até amaram nela, mas ela mesma só sonhara com o amor
da carta dos outros,
mas nunca conheceu o amor
dos outros não.
e quando a minha mãe percebeu
que ela não amava ninguém e que tudo que ela sabia no mundo, era amar; e que
ela guardava os papeis bonitos pr'um dia escrever uma carta bonita, que deixava
de dar beijos n'uma pessoa muito querida para prolongar o beijo dentro de si,
ela sabia que todo esse amor que ela guardava,
ela sabia que ele ia
morrer numa caixa de madeira.
e então, minha mãe
chorou.
minha mãe chorou demais
porque sabia que amava e queria amar mais ainda, queria amar pra fora tudo que
já amava dentro dela;
minha mãe, de dentro de
mim, gritou:
filha arranca essa chave
do seu peito,
o que você carrega é ouro
e lamento
arranca essa chave minha
filha
e encontra suas raízes no
vento
corre, filha! agora que
se faz como um espeto
o botão de rosa que quer
nascer em seu peito
corra, minha filha!
agarra essa chave
gira baila grita e morde
que de trás dessa porta
tem muito mais do que eu
suspeito!
Grazzi

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