quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Iemanjá


Iemanjá
para Andréa Catrópa


Virá

de fora

e

rasgará, a nado
o músculo
da água.

Transbordará (reino de Oxum)

cachoeira

num (como sobra)

lago da memória.

Até que líquida

ser bebida,

e incorporada.

Quando se for (para dentro),

água-fátuo,

deixar-se-á, um pouco,

à matéria

que

engolirá, a seco,

o gole

do

santo.


Eduardo Lacerda

EDUARDO LACERDA: Poeta, produtor cultural e editor de livros. Cursou letras na USP, mas foi jubilado com louvor. Trabalhou como produtor cultural na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e LIteratura e no Programa São Paulo: um Estado de leitores. Coeditou, na FFLCH, a Revista Metamorfose (2002 e 2004). Também coeditou o jornal O Casulo, projeto premiado pelo VAI - Valorização de Iniciativas Culturais. Atualmente é coeditor da Editora Patuá (www.editorapatua.com.br). Gosta de cerveja, tango, truco e tarot. Os poemas fazem parte do livro Outro dia de folia, seu livro de estreia, premiado pelo ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Lançamento em Agosto de 2012.

Embrulho





Embrulho

“Se devíamos chorar quando os palhaços começam a folia,
Se devíamos pinotear quando os músicos se põem a tocar,
O tempo nada dirá mas eu o preveni.”

(W.H Auden)



na festa

esgar de assopros
incineram
os fogos.

apagado
sorrio
(de lado)

fria a vela

o desejo retorna ao estado

de espera.

E eu espero.

E eu estou de parabéns.

Eduardo Lacerda


EDUARDO LACERDA: Poeta, produtor cultural e editor de livros. Cursou letras na USP, mas foi jubilado com louvor. Trabalhou como produtor cultural na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e LIteratura e no Programa São Paulo: um Estado de leitores. Coeditou, na FFLCH, a Revista Metamorfose (2002 e 2004). Também coeditou o jornal O Casulo, projeto premiado pelo VAI - Valorização de Iniciativas Culturais. Atualmente é coeditor da Editora Patuá (www.editorapatua.com.br). Gosta de cerveja, tango, truco e tarot. Os poemas fazem parte do livro Outro dia de folia, seu livro de estreia, premiado pelo ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Lançamento em Agosto de 2012.


Festim



Festim

Jogou copos contra
paredes

Mudou de letra, com
caligrafia e sessões
terapêuticas, dando-
se firmeza às mãos

Rabiscou espelhos
não sendo ele
sua própria

letra.

Lençóis amassados e
marcas de unhas
nas costas.

Cheiro de cigarros,
bebida, suor
e incenso.

— os poucos amigos,
dispersos,

juravam que vivia
em festa. —


Eduardo Lacerda

EDUARDO LACERDA: Poeta, produtor cultural e editor de livros. Cursou letras na USP, mas foi jubilado com louvor. Trabalhou como produtor cultural na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e LIteratura e no Programa São Paulo: um Estado de leitores. Coeditou, na FFLCH, a Revista Metamorfose (2002 e 2004). Também coeditou o jornal O Casulo, projeto premiado pelo VAI - Valorização de Iniciativas Culturais. Atualmente é coeditor da Editora Patuá (www.editorapatua.com.br). Gosta de cerveja, tango, truco e tarot. Os poemas fazem parte do livro Outro dia de folia, seu livro de estreia, premiado pelo ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Lançamento em Agosto de 2012.

A Última Ceia




A última Ceia


Há regras à mesa
como em um brinquedo
de quebra-cabeça.

/ E eu não entendo
os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno
que sentavam ao meio

da mesa (como prato
que se enche
e procura lugar entre
as pessoas). /

Já não me encaixo
depois que aprendi
a olhar de lado
e sair por baixo.


Eduardo Lacerda

EDUARDO LACERDA: Poeta, produtor cultural e editor de livros. Cursou letras na USP, mas foi jubilado com louvor. Trabalhou como produtor cultural na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e LIteratura e no Programa São Paulo: um Estado de leitores. Coeditou, na FFLCH, a Revista Metamorfose (2002 e 2004). Também coeditou o jornal O Casulo, projeto premiado pelo VAI - Valorização de Iniciativas Culturais. Atualmente é coeditor da Editora Patuá (www.editorapatua.com.br). Gosta de cerveja, tango, truco e tarot. Os poemas fazem parte do livro Outro dia de folia, seu livro de estreia, premiado pelo ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Lançamento em Agosto de 2012.

CONVITE: Lançamento do Livro: "OUTRO DIA DE FOLIA" - Eduardo Lacerda





EDUARDO LACERDA: Poeta, produtor cultural e editor de livros. Cursou letras na USP, mas foi jubilado com louvor. Trabalhou como produtor cultural na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e LIteratura e no Programa São Paulo: um Estado de leitores. Coeditou, na FFLCH, a Revista Metamorfose (2002 e 2004). Também coeditou o jornal O Casulo, projeto premiado pelo VAI - Valorização de Iniciativas Culturais. Atualmente é coeditor da Editora Patuá (www.editorapatua.com.br). Gosta de cerveja, tango, truco e tarot. Os poemas fazem parte do livro Outro dia de folia, seu livro de estreia, premiado pelo ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Lançamento em Agosto de 2012.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

LIVRO: CLAREANA




SINOPSE

Igor é um cara comum na casa dos 30 anos que tem sua vida virada de cabeça para
baixo após o lançamento de um livro no qual ele ousou revelar detalhes indiscretos
da entediante vida que levava até então. A obra, lançada sem muito alarde, foi
um tremendo fiasco comercial, mas acabou provocando a ira de sua esposa e
de seu chefe. Com isso, ele é demitido, briga com a mulher e decide finalmente
sair de casa com o intuito de vivenciar aventuras semelhantes às lidas em seus
romances preferidos: “Tanto Faz” e “Pornopopéia”, do Reinaldo Moraes, “Mulheres”
e “Factótum”, do Charles Bukowski, para ficar apenas em alguns.

Após anos preso a uma vida banal e monótona, Igor está a fim de embarcar numa
alucinante história de putaria e liberdade pelas excitantes ruas de São Paulo, e quem
sabe então transformar suas experiências em um novo e divertido livro. Logo no início
dessa nova fase da vida, porém, ele conhece Clareana, uma jovem e atraente cantora,
e sua narrativa acaba tomando um rumo completamente inesperado. O que deveria
ser apenas sexo, porres, farra e curtição acaba se transformando também em uma
obsessiva, angustiante e surpreendente busca.

Repleto de referências literárias, musicais e cinematográficas, alternando momentos
de melancolia e comicidade, oscilando entre a comédia romântica e a pornochanchada,
entre a prosa e a poesia, “Clareana” é uma envolvente história sobre acasos, encontros
e desencontros na cidade de São Paulo.

ORELHA DO LIVRO

Como amante da literatura, acompanho diariamente blogs de editoras, livrarias e estou
sempre em busca do que há de novo na produção nacional. Há cerca de um ano, em um
curso na USP sobre a narrativa no cinema brasileiro, tive a grata surpresa de conhecer
o Vitor França. Éramos dois estranhos naquela turma e, talvez por isso, decidimos fazer
o trabalho de conclusão juntos (um curta de três minutos, que ficou muito melhor do
que esperávamos). Pouco a pouco descobrimos ter diversas coisas em comum, entre
as quais os empregos que nos davam um bom dinheiro, mas pouca satisfação, e um
desejo enorme de se aproximar mais da arte. Nossas conversas eram sempre cheias
de ideias sobre autores contemporâneos, principalmente os mais informais, eróticos,
pornográficos, escatológicos. E aí outra coincidência: ambos adorávamos essa literatura!
Nossas discussões iam de Reinaldo Moraes e Marçal Aquino a Pedro Juan Gutierrez,
João Ubaldo, Bukowski e etc, etc, etc. Eis então que o Vitor decide me contar que estava
terminando de escrever um romance, “Clareana”, e me pede para ler e comentar.
Obviamente aceitei na hora!

Despretensioso, leve, “Clareana” me divertiu desde a primeira página! Comecei então
a campanha de "Vamos lançar o livro, Vitor, vamos!", pois não conheço uma pessoa

que não se identificaria com o Igor (protagonista do livro) e não daria boas risadas
dele ou com ele. Engraçado: uma série de coincidências na cidade de São Paulo me
levou a conhecer o Vitor França e a ler “Clareana”. Outras coincidências na mesma
caótica e apaixonante metrópole, por sua vez, fizeram com que o Igor, um ex-burocrata,
decidisse seguir sua vocação, lançar seu livro e, mesmo após o fracasso de vendas, visse
sua vida mudar da água para o vinho (Muito vinho, por sinal!).

Com linguagem informal, sem grandes pretensões (algo raro num país onde ninguém
escreve um bilhete sem buscar a eternidade, como disse Nelson Rodrigues), a narrativa
diverte bastante com episódios hilários muito bem amarrados que não nos deixam
abandonar o livro antes do final! Uma história de encontros e desencontros, paranoias,
amores, sexo, excessos e delícias! Com diversas influências do cinema e certamente
com Reinaldo Moraes como sua grande referência literária, Vitor França conseguiu
mostrar seu estilo e começar sua carreira literária de modo bem diferente de seu alter-
ego Igor. Seu romance de estreia é certamente o primeiro de muitos que farei questão
de ler e reler! A minha campanha sem dúvida valeu a pena e tenho certeza que renderá
excelentes frutos e muita diversão aos leitores!

Manoela Andrade (formada em Letras pela USP)

Sobre o autor

Vitor França nasceu em São Paulo, em 1982. É mestre em Economia pela FGV-SP e
economista formado pela USP, onde atualmente cursa Letras. “Clareana” é seu primeiro
romance.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Música: CASTELOS DE AREIA



Castelos de areia



(intro) C

C                          G

Construímos tantos castelos, tão belos castelos

Em7                                  G

Feitos de areia e pedaços de sonhos em pedaços

D9/F#                   Em7   A7                        Am7

Que se dissolvem tão fácil neste imenso mar azul

C                                 A7

Que se confunde no horizonte com o céu

Em7                        A7               C9

Em um pedaço de papel amarelado

                              G

Tantos planos esquecidos

                 Em7                                 A7

Há muito tempo deixados de lado

C9                                   A7                 D

Perdidos em algum lugar do passado

D7/A                                      G             F#m Em

Empoeirado num canto do armário

A7                    C9                            G   F#m Em

Encontrei nas páginas de um livro desbotado

A7                             C9              G          F#m Em

Alguns pensamentos, naquele papel, anotados

A7                            C9             G           F#m Em

Junto com alguns retratos, uma caneta e um caderno usados

(Refrão) A7 C9                    G                 F#m Em

Meu castelo em pedaços

                         A7                     C9              Bb Am7 D ) 2x

Voláteis como o éter, eles se perdem no espaço

D       D7/A           G            F#m  Em

Algum tempo atrás

A7                      C9

Agora tanto faz como um oasis no deserto

G                                                  Em7            A7

Surge no horizonte de repente incerto feito ilusão

            C9                                                      G

Como na primavera quando caem as folhas secas

                     Em7                         A7
Que o vento sopra pra outra direção

(Refrão) A7 C9           G              F#m  Em

Meu castelo em pedaços

                      A7                  C9            ( Bb Am7 D ) 2x

Voláteis como o éter, eles se perdem no espaço.

Autor: Carlos Eduardo de Almeida Silva (Cadu)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Poema Esdrúxulo pré-balada



Poema esdrúxulo pré-balada

Hoje, não me importa se é firme a nádega

Ou se é bunda furada de celulite explícita

(Até prefiro, à barriga chapada, o pneu lírico,

Sinal de que a bela não é do tipo fanática,

Nem deixa de desfrutar o prazer do lúpulo)

Hoje, não me importa a questão da estética

Quero os seios falsos, quero os seios flácidos

Quero me embebedar em seus mamilos rígidos

Desaparecer por entre as suas carnes úmidas

Aparecer novamente, como num passe de mágica

Enlouquecendo-nos num vai-e-vem frenético

Hoje, amá-la-ei como se fosse a última

Ao menos até o instante do mais puro êxtase

Quando enfim a inundarei com o meu leite cálido

E ouvirei, saciado, de seus lábios trêmulos...

Uma intraduzível onomatopeia proparoxítona!

Vitor França

Letras - 3º ano

O Escritor Onanista



O escritor onanista

Escrevi um belo verso

Sobre o encanto do luar

De repente estava na lua

Mas nem precisei decolar

Na mesa estive disperso

Em nada podia pensar

Imaginei a garçonete nua

Homenageei-a no banheiro do bar

Foi então que eu percebi

Que escrever é se masturbar

Invento a mulher amada

Estou em qualquer lugar

Quando bato uma punheta

Ou escrevo uma chanchada

Minha vida está completa:

Estou vivo! Sou poeta!

Não preciso de mais nada!

Só me basta imaginar...

Vitor França

Letras - 3º ano

Poema para Pichação de Banheiro Masculino




Poema para pichação de banheiro masculino

Vagina tem muito nome:

Xana, xoxota, buceta;

É comida que não mata a fome,

Alimento pra minha punheta.

Mas não só de xana vive o hôme,

Que também gosta das teta,

E pira quando o seu pau some

No meio de uma rabeta.

Vitor França

Letras - 3º ano

ASSALTO À MÃO AMADA



ASSALTO À MÃO AMADA

A noite és silêncio;
então, silencio.
A noite é silêncio,
anoitece frio.

Um carro passa na rua
e o barro sob meus pés
avisa o passo da lua
por trás dos canapés,
poltronas, cadeiras vazias,
cortina de solidão,
o vidro que desafia
o sangue no corrimão.

A noite são trincos de ouro
no brilho do roto portão,
és nua no sofá de couro,
a lua de prata na mão.
A noite é sala vazia,
colares sob o luar,
das mãos a supremacia
que servem para roubar.
Em vão desejas a vida,
avidamente a cantar:
prometo nenhuma ferida
na hora de matar-te
tanto o gozo como a loucura,
de pranto e pouco doer,
enquanto à tua procura
morro só de querer.

À noite há silêncio,
frio e gratidão,
fugas e desejo,
pecados sem perdão.

Gui Monteiro – Letras – 1º Ano - Noturno

DESANUVEM




DESANUVEM

Só, parado na porta do mar,
show à parte da parte do céu,
sou a parte que arde no ar,
és a parte que tira o chapéu.

Solapado por conta do fel
do medo que faz divagar,
sou o pássaro, doce label,
sobre as nuvens do amor a voar.

Canta o Céu destinos fremosos
feito aedos que sabem cuidar
de caminhos tão perigosos.

Castram-me o dom do belo cantar
os ditames da norma fogosos
de ver a chama apagar.

Gui Monteiro – Letras – 1º Ano – Noturno

Primeira Grande Merda Mundial




PRIMEIRA GRANDE MERDA MUNDIAL

Hoje em dia, poheresia.

Louco de desejo é pouco.

Rouco, canta para moucos ouvidos.

De cara limpa, o mundo gira e a Poesia roda.

Cáustica rima que se perde é foda,

mas açoda o espírito para um fato:

o desacato da escrita premedita a sina,

verso caudímano, que na cruza das línguas ferinas

ferra almas.

Estou assim, à mercê da Merda Maiúscula,

Feito impromptu natimorto.

A Grande Merda Maiúscula do homem minúsculo,

dos homens sem qualidades.

E então deporto o apego à poesia, à vida,

Porque Merda fede e pede passagem para a eternidade.

Merda herda perdas, sandias valias em dinheiro morto.

Dinheiro não, vinhedos sim.

Dinheiro e pão, vinde a mim!

Dinheiro Cão, valha-me Deus!

Dinheiro não dás aos teus.

Dinheiro eu, dinheiras tu,

dinheira ele, sem eira nem feira,

dinheiramas a nós, calando tua voz,

dinheirão para eles.

Enquanto sós, uivamos à sobrevida que nos cabe,

e a mediocridade que nos enrabe e ame:

se a poesia acaba, desaba sobre nossas cabeças

a pobre obra do fazer infame.

Gui Monteiro – Letras – 1º Ano – Noturno