NOTAS ENTRE AS SERRAS
Na cidade fala-se
sobre caráteres. Nas serras, de serras.
Por entre as areias
desta praia, um pé basta para marcar um som forte
por todo o litoral.
Mas aqui nas serras o som não chega claramente. Não
chama atenção. E por
entre esses prédios, entre as subidas e descidas,
quem perceberá o
passo do homem e a marca que deixou com seu
caminhar?
Em cima de um lago
que se estendia ao longo de um vale cercado por
serras cheias, um sol
castigava sem misericórdia os pescadores nas
margens. As margens
do lago eram todas desniveladas e, comumente,
assimétricas. Havia
diversos níveis de terra, o que indicava uma seca
prolongada. As águas
estavam baixas, deixando os peixes reunidos lá
no fundo. As serras
tentavam sem sucesso ajudar os pequenos peixes
que perdiam pouco a
pouco seu espaço. Elas puxavam seus braços
verdes como podiam,
em uma imensidão homogênea. Mas o sol persiste
enquanto a terra
tenta se esquivar. De noite, dois pescadores voltam para
seus cantos e as
águas recuam de medo. Tudo no solo verde queima
e os pescadores,
desesperados por verem seus alimentos escaparem
por entre seus
pequenos dedos, rezam para as nuvens. Em um céu
retamente azul, as
nuvens cruzam o caminho do Sol. Este, nervoso
com a atitude das
nuvens, castiga espremendo-as até que uma por
uma desapareça,
deixando os pescadores cabisbaixos. O Sol não sente
piedade por tão
ingênuos seres.
Quão maldita é a
expressão que em apenas um segundo, quando não
houver mais
cooperação, ela prenderá o homem em sua desumanidade,
em seu silêncio
momentâneo, no maior momento do viver. Pois, nas
serras, a expressão
encontra alento na natureza, no antinatural do
silêncio. Mas entre
elas, nas construções humanas, torna-se uma
vitalidade. E que
compaixão suporta aquele que mal compreende o
que supõe; o que se
representa através do expressado, uma única
palavra sem
significado. Que maldição possui o homem com essa infinita
incapacidade de
declamar algo propriamente seu!
Perto do lago
ergue-se a serra. Essa arranca para o alto, sem hesitação,
buscando uma virtude
e um nome. Não sei como se chama essa serra,
mas sei que ela
possui um nome. Um nome de serra, nome próprio,
inominável. Tantas
pessoas passam por seus pés, mas nenhuma imagina
que essa serra, tão
particular, chama-se por um símbolo: específico e
único. Mas, e aí que
está todo o mistério, esta serra não se atreve a dizer
quem é. Ela fica
calada e imponente, guardando seu nome para si. Por
isso a curiosidade. E
é justamente nela que nos fazemos humanos. Pois
toda pronunciação ou
proclamação de um nome, algum ser potente, me
parece baixo enquanto
ser. Creio ser presunção não saber o nome da
serra, seu verdadeiro
nome, e dizer com arrogância: “essa serra não
possui nome próprio”;
ou pior: “vou chama-la de...”.
O dia me parece mais
verdadeiro. A travessia do sol, visível pela própria
estrela, parece
realmente iluminar os caminhos. Não um iluminar natural,
senão uma luz vinda
da vontade. E mesmo queimando os povos aqui
perto da linha
central, creio que sinto privilegiado com esse excessivo
calor. Revela coisas
de coisas que não se vê em uma suposta reveladora
noite. A noite
derruba as máscaras; mas e se as próprias máscaras
formam o rosto
verdadeiro de alguém? E se na própria máscara o
encobrimento dos
traços se encontra descoberto nos próprios traçados?
A revelação pode
também cobrir um indivíduo. Pois não se sabe se, entre
a noite e o dia, a
máscara do homem cai de maneira definitiva ou se a
máscara adquire uma
nova força para encobrir. O homem dissimula na
noite e no dia,
revela sua loucura aqui entre as serras, atravessado os
rios com sua nau
durante toda a passagem do sol. Mas na luz, somente
na luz, que se pode
distinguir cada navegador.
“Basta de natureza!”
Disse Adão enquanto degustava o fruto proibido.
Raphael Boccardo
Letras - 3º Ano