A Blusinha Azul
Quando se conheceram, ainda não existia a blusinha azul. Ela
fora adquirida mais tarde, peça de pijama, feita para dormir e sonhar com todos
os anjinhos, demônios terríveis. Tão bonita a blusa. Tão azul a blusa.
Delicadinha como eram as nuvenzinhas no céu.
Pois bem. Era tão graciosa aquela peça de roupa de dormir, que a moça passou a
vesti-la também por baixo das vestes de escola. Era fresca e confortável, feita
para velar sono em noite de verão pesado. Bem gostosa ela era. Depois, então,
eles se conheceram: a moça e o moço.
Quando tomava banho, a blusinha azul secava ao sol e cheirava bem. E assim
modelava o corpo da moça, e dele saía cheirando ainda melhor, - diziam - pois
tinha o perfume do suor, das loções, cremes e cosméticos mil.
O moço baixava as alças da pecinha, erguia as rendas de sua base e, por vezes
inúmeras, abraçava a roupa vazia para depois abraçar um corpo nu. A moça gemia.
A blusa deixava-se ao chão, sorrindo sempre, observando a dona alegre.
Houve um dia em que a blusinha azul não foi nem vestida, nem
lavada. Foi dobrada e enfiada às pressas numa bolsa. Nada entendia naquele
escuro todo, sem calor de pele ou de sol. Mas, ah!, a bolsa foi aberta, a blusa
tomada nas mãos da moça e entregue ao moço. Claro, teve saudades da dona, mas
era beijada e abraçada às noites. Por um homem!
A garota ia visitá-la às vezes, mas então o rapaz não mais desejava a blusa, e
sim o corpo. A pecinha se entristecia. Houve uma noite em que o moço bateu na
blusinha azul e a jogou no chão e a chutou.
A moça veio buscá-la depois de
alguns dias. Acariciou-a muito e a beijou também. Olhava a cor azul encardida,
mas era tão linda, tão gracinha, cheia de rendinhas brancas (agora cinzentas).
A dona chorou muito sobre sua roupa. Chorou tanto, tanto, tanto... E não
cessava o choro. Tomou um banho com seu pijaminha no corpo - depois de algum
rum - e secou-o ao sol do dia seguinte.
Por fim, a moça olhou a blusinha azul, beijou-a mais uma vez, dobrou-a e
guardou-a na gaveta para nunca mais. Nunca, nunca mais. Por mais que grite essa
peça tão usada.
Giulia De Conti
Letras - 2º Ano

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