quinta-feira, 26 de abril de 2012

Notas Entre as Serras



NOTAS ENTRE AS SERRAS


Na cidade fala-se sobre caráteres. Nas serras, de serras.

Por entre as areias desta praia, um pé basta para marcar um som forte
por todo o litoral. Mas aqui nas serras o som não chega claramente. Não
chama atenção. E por entre esses prédios, entre as subidas e descidas,
quem perceberá o passo do homem e a marca que deixou com seu
caminhar?

Em cima de um lago que se estendia ao longo de um vale cercado por
serras cheias, um sol castigava sem misericórdia os pescadores nas
margens. As margens do lago eram todas desniveladas e, comumente,
assimétricas. Havia diversos níveis de terra, o que indicava uma seca
prolongada. As águas estavam baixas, deixando os peixes reunidos lá
no fundo. As serras tentavam sem sucesso ajudar os pequenos peixes
que perdiam pouco a pouco seu espaço. Elas puxavam seus braços
verdes como podiam, em uma imensidão homogênea. Mas o sol persiste
enquanto a terra tenta se esquivar. De noite, dois pescadores voltam para
seus cantos e as águas recuam de medo. Tudo no solo verde queima
e os pescadores, desesperados por verem seus alimentos escaparem
por entre seus pequenos dedos, rezam para as nuvens. Em um céu
retamente azul, as nuvens cruzam o caminho do Sol. Este, nervoso
com a atitude das nuvens, castiga espremendo-as até que uma por
uma desapareça, deixando os pescadores cabisbaixos. O Sol não sente
piedade por tão ingênuos seres.

Quão maldita é a expressão que em apenas um segundo, quando não
houver mais cooperação, ela prenderá o homem em sua desumanidade,
em seu silêncio momentâneo, no maior momento do viver. Pois, nas
serras, a expressão encontra alento na natureza, no antinatural do
silêncio. Mas entre elas, nas construções humanas, torna-se uma
vitalidade. E que compaixão suporta aquele que mal compreende o
que supõe; o que se representa através do expressado, uma única
palavra sem significado. Que maldição possui o homem com essa infinita
incapacidade de declamar algo propriamente seu!

Perto do lago ergue-se a serra. Essa arranca para o alto, sem hesitação,
buscando uma virtude e um nome. Não sei como se chama essa serra,
mas sei que ela possui um nome. Um nome de serra, nome próprio,
inominável. Tantas pessoas passam por seus pés, mas nenhuma imagina
que essa serra, tão particular, chama-se por um símbolo: específico e
único. Mas, e aí que está todo o mistério, esta serra não se atreve a dizer
quem é. Ela fica calada e imponente, guardando seu nome para si. Por
isso a curiosidade. E é justamente nela que nos fazemos humanos. Pois
toda pronunciação ou proclamação de um nome, algum ser potente, me
parece baixo enquanto ser. Creio ser presunção não saber o nome da
serra, seu verdadeiro nome, e dizer com arrogância: “essa serra não
possui nome próprio”; ou pior: “vou chama-la de...”.

O dia me parece mais verdadeiro. A travessia do sol, visível pela própria
estrela, parece realmente iluminar os caminhos. Não um iluminar natural,
senão uma luz vinda da vontade. E mesmo queimando os povos aqui
perto da linha central, creio que sinto privilegiado com esse excessivo
calor. Revela coisas de coisas que não se vê em uma suposta reveladora
noite. A noite derruba as máscaras; mas e se as próprias máscaras
formam o rosto verdadeiro de alguém? E se na própria máscara o
encobrimento dos traços se encontra descoberto nos próprios traçados?
A revelação pode também cobrir um indivíduo. Pois não se sabe se, entre
a noite e o dia, a máscara do homem cai de maneira definitiva ou se a
máscara adquire uma nova força para encobrir. O homem dissimula na
noite e no dia, revela sua loucura aqui entre as serras, atravessado os
rios com sua nau durante toda a passagem do sol. Mas na luz, somente
na luz, que se pode distinguir cada navegador.

“Basta de natureza!” Disse Adão enquanto degustava o fruto proibido.



Raphael Boccardo
Letras - 3º Ano

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