quarta-feira, 18 de abril de 2012

Folhas de São Paulo




Folhas de São Paulo

A folha voa para dentro de mim. Contemplo a nuvem parada no ar, com cara de quem comeu e não gastou, língua para fora, a desdenhar viventes que não conseguem ler nuvens. Há uma rolha parada no chão que me recomenda: “Apanha-me e povoa de cortiço o buraco na tua alma”. Rolhas tiradas de árvores, átomos da evolução, úteis átimos da vida. Cortiça tábua de salvação da lira dos vinte anos, cheios da lida, da ordem e da desordem, que falta me fazem, o sangue que corre nas ruas e pulsa viver. Estou quieto num canto e canto quietos desejos e sonhos de travesseiro de folhas secas, perfumadas, úteis ótimos da vida. A folha viva da cidade verde, bílis, verde, sífilis, verde perto e longe na fumaça do barulho, não há silêncio e calma nas plagas do som e da fúria. A folha guardada no meio do livro aberto no meio do povo dentro do trem. A folha-recordação, voadora e seca, perfumada e bela, perfeita e morta, mas viva a folha, as folhas da cidade cinza, minha linda cidade cinzelada a fundo, perfeita e morta, fedorenta e feia, úmida andarilha das rodas da fortuna, duna de pó pesado que mata calma e silente, descendo bruta sobre almas esburacadas, arroladas testemunhas de uma pomba-folha que voa para dentro de mim. Cobre-me, folha da vida, por misericórdia!


Mas ela me cobra, a folha-recordação. Que bom. Silêncio e calma. A nuvem e eu no meio da tarde de um sol cegado a Édipo, filho da mãe cidade. Já não quieto mais no meu canto, e ando a fundo perdido, olhando pessoas nos olhos, auscultando folhas corridas, de pagamento, de papel vário jogado sobre mesas, e todos, como eu, vagando pelo asfalto de cimento concreto e barro de construção, os pés sujos do sangue das mansões apodrecendo ao ar livre, pois somos pequenos, vazios, pobres, decadentes. Só pode ser isso, cair, minguar, evaporar, por aí desaforar! A folha seca sozinha, não precisa fazer nada, e voa para dentro dos livros abertos da vida da gente, tirando marcadores de papel grosso, folha que cai sozinha contra a queda das árvores, e por que não fazemos o mesmo, folheando sutilezas? Porque somos, enfim, terra desolada, e, solados, ficamos sem jogar, sonhando folhas secas e com quantas se faz um livro aberto. Vou agora, antes que me peguem, me levem, me lavem, me louvem e se livrem de mim. Vou correr para o final da folha, para ser, ter, ver, zé ninguém zen ninguém. Não há mais tempo, pó somos de folha morta na palma da mão culpada. O vento sopra dentro de mim, uivando medo pelos buracos d’alma, metendo cedo o fim dos tempos goelas abaixo.     


Gui Monteiro
Letras - 1º Ano

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