quinta-feira, 1 de novembro de 2012




LIBER PUERI

há um livro sobre a mesa
o menino chega chorando da rua
apanha o livro e para de chorar
imediatamente
abre o livro
aleatoriamente
um resto de lágrima morre na página aberta
o menino para guardar a lágrima
fecha o livro mas não o devolve à mesa
leva-o para o quarto
o único quarto do mundo
abre a gaveta do criado-mundo
ao lado da caminha ricamente arrumada
pela mãe põe o livro lá dentro de si
a lágrima agora escondida no livro
volta para o lugar
de onde nunca deveria ter caído
o menino não está mais triste
mas também não está feliz
coçando o nariz molhado
diante de seu chiado mudo
mudo
a caminha caminha na direção do sonho maior
o quarto não emite um pio sequer
um gemido
um sussurro
uma mosca voando
que lindo
o menino parado
estátua de lágrimas condensadas
escondidas
seu livro predileto
presente da mãe presente
melhor tirar para fora
assim é melhor
a gaveta aberta o espera
as mãos do menino temem largá-lo
antes da hora
a gaveta uma boca aberta e muda
a mosca enfim
a colcha do Mickey enfim
a linda mãe volando em silêncio
no quarto de hora
a nota baixa enfim
a mãe que acaricia seus cabelos
o menino é um bom menino
sensível mirrado sente muito frio
mas a casa é seu refúgio

sempre será
rapazote homem feito velho
sempre
a casa o recebe como ao livro sobre a mesa
a casa o guarda na gaveta quentinha
e o guarda dos males do mundo
o menino senta na cama
o livro guardado
as lágrimas do pensamento
ele olha para trás vê sua vidinha de menino
a porta do quarto se abre
é a mãe quentinha o amor de mãe
as doces mãos e palavras que o levarão para a vida
leia livros meu amor
seu amor crescerá para um amor de rapazote
de homem feito de velho
que precisará de cuidados e poucas gavetas
uma estante pelo menos
professoras jamais
menos ainda amores de infância
a mãe velhinha linda ainda


Gui Monteiro
Letras USP

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